Rádio Tabajara

Brasileiro é técnico do time do Partido Comunista em Moscou

29 de junho de 2018

Entre os mais de 12 milhões de habitantes que vivem em Moscou, capital da Rússia e coração da Copa do Mundo de 2018, está o brasileiro José Marcelo Gomes. O ex-atleta de futsal, hoje preparador físico, pisou pela primeira vez em território russo em 2010 e hoje é contratado do KPRF, o time de futsal do Partido Comunista da Federação Russa. Com escritórios em todo o país (e também torcida), o partido, fundado em 1993, investe no esporte.

No Brasil, soa estranho quando se fala em “time de partido político”. Na Rússia, o KPRF joga a SuperLiga, principal divisão do futsal, desde 2011 – o time começou suas atividades em 2003. A equipe não tem instalações próprias: treina num ginásio em Reutov, na região metropolitana de Moscou, e joga em Klimovsk, a cerca de 50km da cidade. Ambos alugados, uma prática que também é comum entre os outras equipes do esporte no Rússia.

É um clube espalhado. A estrutura física é diferente. Nenhum clube da SuperLiga tem ginásio, são todos alugados. A gente treina num ginásio e joga em outro. O carro chefe do KPRF é o futsal, mas é um clube gigante, promove o esporte na Rússia inteira. Tem atletismo, natação, triatlo, patinação… Tem uma campeão olímpica de powerlifting (levantamento de peso) do Partido Comunista. Eles têm escritórios na Rússia toda. Eles se mantém assim, é um clube normal. Como eles têm escritório em toda cidade, temos torcida em todo lugar, pequena ou não, mas sempre tem. Apoiam. A gente dá até autógrafo, isso é bem legal – contou José Marcelo Gomes, de 48 anos, ao LANCE!, que completa dizendo que não há nenhuma “cartilha de conduta” por política.

– Tem a coisa que eu percebo, que é implícito, que sei que estou fazendo propaganda do comunismo, do partido. Mas não é ficar taxando de socialismo e capitalismo como no Brasil. O partido reconhece seus erros do passado, mas são orgulhosos do que fizeram. O dia a dia é normal. Não nos influenciam em nada politicamente, não preciso seguir nada. Inclusive é até engraçado, porque nosso uniforme é Nike. De um lado tem foice e martelo, do outro a Nike. O socialismo e o capitalismo. É como qualquer clube. A torcida, em casa, é mais barulhenta. Criou um vínculo. Há muito respeito, eles esperam o jogo acabar para entrar na quadra. É muito respeitoso, é caloroso. O russo não é frio, eles só precisam te conhecer – declarou.

O Partido Comunista da Federação Russa é visto como sucessor do Partido Comunista da União Soviética, que foi banido em 1991 com o fim do antigo regime. É o segundo maior do país, mas muito atrás do Rússia Unida, do atual presidente Vladimir Putin. O time de futsal, que trabalha para ser campeão pela primeira vez, tem hoje mais poderio financeiro do que alguns concorrentes.

– Eu estava no Dina (MFK) no ano passado, que é de Moscou. Fomos campeões da Copa da Rússia e da SuperLiga Russa. Fiquei sem receber alguns salários, foi difícil. Jogamos contra o time do Partido Comunista, deixamos uma boa impressão com a direção. Eles sabiam das dificuldades do meu clube na época. Acabou o campeonato e entraram em contato, fizeram uma proposta. Com três meses sem receber salário, o jogador pode rescindir e fica livre. Vários jogadores do Dina fizeram isso. O clube contratou eles, o técnico e negociou comigo. Acabamos acertando. Fiz um contrato de dois anos – disse Gomes.

José Marcelo começou a jogar futsal com 15 anos e parou com 30. Depois, entre idas e vindas, atuou como preparador físico. São 27 anos no esporte. Na visão dele, a SuperLiga Russa está entre as três melhores do mundo, no mesmo nível da Liga Futsal, do Brasil, só abaixo do campeonato da Espanha. Vários jogadores brasileiros atuam na Rússia. O maior desafio é a adaptação, e para falar em adaptação ao país é preciso ir por etapas. A primeira: o clima.

Neste fim de junho, durante a Copa do Mundo, os termômetros chegam a 26 graus: faz calor em Moscou, cidade repleta de parques que agora são tomados por turistas e russos. As noites são curtas no verão: escuridão só das 22h às 3h. Vivendo sozinho na cidade, longe da esposa e filhos, é justamente na época mais agradável do ano, nas férias, que José Marcelo viaja ao Brasil, como fez há poucos dias, para rever a família.

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